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sábado, 4 de junho de 2011
terça-feira, 31 de maio de 2011
sábado, 21 de maio de 2011
sexta-feira, 20 de maio de 2011
A Iconografia Mariana da Igreja Paroquial das Mercês (Lisboa) / Igreja do [antigo] Convento dos Terceiros de Nossa Senhora de Jesus
Organizou o Pároco das Mercês e St.ª Catarina, e Director do Centro Cultural do Patriarcado de Lisboa – Pe. António Pedro Boto de Oliveira, no passado dia 30 de Abril de 2011, pelas 21h00m, uma Apresentação sobre a Iconografia Mariana da Igreja Paroquial das Mercês, a que assistimos por convite do Centro Cultural do Patriarcado.
Foi uma óptima oportunidade de conhecer um dos espaços de culto de Lisboa mais ricos e aprender um pouco mais sobre a temática da iconografia mariana tão importante para quem, como eu, se interessa pela história da arte religiosa.
Deixo agora aqui alguns pequenos apontamentos que tirei na apresentação acrescentando outros elementos adicionais dispersos sobre as Imagens apresentadas e o seu contexto na História da Igreja de Nossa Senhora de Jesus e da Paróquia das Mercês de Lisboa.

Origens do Culto Mariano

(Imagem de Nossa Senhora de Jesus)
O culto mariano sempre teve uma presença nas igrejas cristãs desde as suas origens, pois sabe-se que das mais antigas representações marianas encontram-se nas Catacumbas de Priscilla datável do século XII. Enquanto as primeiras Basílicas cristãs estavam, associadas sobretudo à lembrança dos Santos mártires, incluindo os Apóstolos, é sobretudo a partir da época medieval que se assiste a uma profusão da devoção mariana existindo, por exemplo vários templos dedicadas a Santa Maria.
Com a chegada e difusão das importantes ordens religiosas medievais (Beneditinos, Cistercienses) e sobretudo alto-medievais (Dominicanos e Franciscanos) assiste-se à profusão das invocações específicas dessas ordens em função dos dogmas e da evangelização proposta.
Existem muitas invocações de Nossa Senhora associadas quer aos diversos momentos dos Evangelhos quer aos locais onde o seu culto se promoveu e divulgou.
A própria representação de Nossa Senhora varia bastante havendo muitas situações em que se confunde com as outras personagens femininas, quer do Antigo Testamento (como o caso da Rainha Ester), quer com algumas Santas mártires dos primeiros tempos da Cristandade.
Os títulos de Nossa Senhora eram muitas vezes atribuídos por pregadores por vezes ortodoxos, como no caso da invocação e Nossa Senhora Mãe dos Homens, imagem promovida por uma frade Lisboeta do século XVIII, que nos primeiros tempos de pregação era visto como um louco, mas que com o tempo foi ganhando muitos adeptos.
De entre as muitas imagens da Igreja de Nossa Senhora de Jesus, algumas têm de facto invocações muito originais, começando pela de Nossa Senhora da Conceição da Escada.
Nesta sessão falou-se 7 invocações, de que a seguir tratamos.
Iconografia Mariana da Igreja de Nossa Senhora de Jesus:
(1) Nossa Senhora da Conceição da Escada



(Várias Imagens de N.S. da Escada)
Imagem que deu origem a uma secular procissão que se repetiu no dia 1 de Maio de 2011, e que se consta ter origem (a procissão) num voto feito em 14 de Agosto de 1431 a qual durou até à chegada dos Filipes ao trono português.
Terá origem numa antiga Ermida de Nossa Senhora da Corredoura que existiu no Rossio, junto ao Convento de S. Domingos de Lisboa, e a sua invocação estaria relacionada com os 31 degraus que seriam necessários vencer até chegar à porta da Ermida, então se localizava num dos braços do rio que entrava pela baixa adentro.
«Junto de sua ermida, os pescadores buscavam remanso, amarrando seus barcos aos argolões de ferro chumbados em pilares de cantaria lavrada, e ao descerem o esteiro do Tejo, de gorros sobraçados e de mãos erguidas, pediam-lhe que lhes protegesse as redes. Tão querida e popular foi, que, pelo testemunho de frei Luís de Souza, todas as procissões que a cidade ordenava, ou para pedir a Deus remédio, ou para necessidades públicas, ou para agradecer graças recebidas, a essa ermida se dirigiam».
«Com o tempo, começaram a acorrer à capela pessoas em barcos de locais longínquos, a fim de cumprir promessas e votos, bem como agradecer favores recebidos. Numa determinada época, realizava-se uma procissão com tochas acesas, provavelmente à noite, que descia o rio até chegar à capela dedicada a Nossa Senhora da Conceição da Escada».
Em 1531 um terramoto destruiu a capela, que foi reedificada, no entanto o pequeno templo desapareceu definitivamente com o terramoto de 1755.
A partir do século XIX foi transferida, primeiro para o Convento dos Cardais e depois para o Convento de Jesus, sede da Paróquia das Mercês a partir de 1835.
A N.S. da Conceição da Escada tinha uma Irmandade fundada em 1761 e de que em 1895 era Juiz Manuel Joaquim Duarte.
Há quem invoque a escada como uma metáfora de Nossa Senhora como exemplo, uma «escada» para a santidade.
Em termos iconográficos a «Escada» é representada de diversas formas, enquanto na imagem presente no Convento de Jesus e nas diversas imagens difundidas no Brasil colocam a escada sob as mãos juntas da Virgem, também existem representações de Nossa Senhora num altar em forma de escadório ladeado por anjos, também conhecido por Scala Coeli (Escada do Céu) como por exemplo na Cartuxa de Évora, ou Ara Coeli (Altar no Céu), que corresponde à invocação de uma igreja de Roma doada aos Franciscanos no século XIII.
No Patriarcado de Lisboa conhecemos duas Ermidas sob invocação de Ara Coeli, uma na freguesia de Achete (Santarém) fundada em 1663 e outra numa quinta por trás do Chafariz de Arroios, em que Dona Maria Oliveira estabeleceu um vínculo de Capela antes de 1672.
Aliás esta última ermida fora já fundada em 1665 por Francisco de Brito Freire, Senhor do Morgado de Santo Estêvão e Nossa Senhora de Jesus, em que sucedeu ao pai, do mesmo nome e que fora instituído pelo avô Estêvão de Brito Freire, cavaleiro fidalgo de Sua Majestade, que em 27 de Agosto de 1627 se contratou com os padres do Mosteiro de Nossa Senhora de Jesus da Ordem Terceira de São Francisco de Lisboa, para lhe cederem capela mortuária na sua igreja com obrigação deste custear as respectivas obras, incluindo um retábulo de invocação de Santo Estêvão (DGARQ/ADL, CNL, 7-A, L. 6, ff. 12v-14 – cit. Vítor Serrão, «Documentos dos protocolos notariais de Lisboa referentes a artes e artistas portugueses», in Boletim Cultural da Junta Distrital de Lisboa, Nº 90 (1984-1988), p. 88).
(2) Nossa Senhora da Lembrança
Invocação pouco comum cuja origem é relatada por Frei Agostinho de Santa Maria no seu Santuário Mariano, já não pode ser admirada nesta igreja pois desconhece-se o paradeiro depois do terramoto de 1755, mas o altar será um dos que ainda se encontram na igreja pelo menos a fazer fé no contrato notarial da sua feitura datado de 1710.
Parece ter sido colocada numa Capela nos princípios do Convento de Nossa Senhora de Jesus (cuja Igreja foi inaugurada em 1623) por D. Fr Paulo da Estrela e sua irmã Jerónima Dias, que nela estabeleceram missa quotidiana, a que obrigaram os seus bens, obrigação que continuaram os descendentes de Jerónima Dias, que eram em 1707 os filhos de Domingos Barreiros, neto de Jerónima Dias.
Sabe-se que à sua volta se constituiu uma Irmandade que em 6 de Fevereiro de 1710 se contratou com Manuel João de Matos para a feitura do "(...) retabollo e trebuna da capella da mesma Senhora da Lembransa sitta na ditta jgreja do mesmo convento com dous santuarios nas ilhargas (...)".
(DGARQ/TT, C.N.L., 9A (actual n.º 7), L.º 346, ff. 46-47, publ. por Ayres de Carvalho, Documentário Artístico, p. 39 – cit. Sílvia Maria Cabrita Nogueira Amaral da Silva Ferreira, A Talha Barroca de Lisboa (1670 - 1720). Os Artistas e as Obras: Doutoramento em História, in:
Segundo António Carvalho da Costa na sua Corografia Portuguesa (1712) havia também na Ermida de Nossa Senhora da Vitória uma Capela dedicada a Nossa Senhora da Lembrança, devoção dos caldeireiros que cuidavam da festa e do adorno do nicho a ela designado. Na diocese do Porto fala-se de uma ermida com o mesmo orago.
Em 1723 o ourives da prata de Lisboa, José Francisco de Oliveira, fundou com a sua mulher uma Ermida da invocação de Nossa Senhora da Lembrança, na sua quinta do Vale do Torrão nos arrabaldes da vila de Almada, a qual veio dar origem à toponímia local «Quinta da Alembrança» (DGARG/TT, CEL, Mç. 1807, # 7).
Em 1759 temos notícia da Irmandade de Nossa Senhora da Lembrança do Salitre (Lusitania Sacra, 1995)
A devoção de Nossa Senhora da Lembrança parece ter-se expandido graças aos Padres da Congregação do Oratório (http://www.avemaria.com.br/revista/maria.jsp?rId=36).
Deixo aqui excertos do Santuário Mariano que retratam a origem da devoção de Nossa Senhora da Lembrança do Convento de Jesus:
«TITULO XII
Da milagrosa Imagem de nossa Senhora da Lembrança que se venera no Convento dos Padres Terceiros de Nossa Senhora de Jesus.
A Principal Casa q tem a Ordem Terceira do Seraphico Padre S Francisco he o Convento de nossa Senhora de Jesus Fundou-se este em Lisboa no sitio quechamão dos Cardaes e tomarão delle posse os Padres em dia de seu Pathriarcha S Francisco a 4 de Outubro de 1599 e no dia de São Mathias de 1623 se disse a primeira Missa na sua nova Igreja o que se fez com grande solemnidade.
São Padroeiros desta Casa os Condes de Atalaya & foy seu Fundador Illustríssimo Arcebispo de Lisboa Dom João Manoel que enriqueceo este Convento de muitas & notáveis relíquias de ricos & custosos ornamentos & de fermosas & curiosas peças & vasos de ouro & prata para o culto divino & a viver mais annos seria este Convento o mais rico de todos os do Reyno em cousas desta qualidade.
Nesta Casa he tida em grande veneração huma devota Imagem da May de Deos que nos principios da fundação daquelle Convento collocou em huma dasCapellas da sua Igreja o Bispo D Fr Paulo da Estrella Religioso da mesma Ordem e sua Irmãa Hieronyma Dias grande devota de nossa Senhora & impuzerão-lhe o título da Lembrança querendo obrigar sem dúvida a esta piedosa May dos pecadores a que com este titulo muito se lembrasse delles e como esta Senhora segundo diz S Bernardo he solicita cuidadosa medianeira para com aquelle Senhor que he o singular medianeiro para com o Pay Mediatrix ad mediatorem he certo se lembraria muito delles Estes mesmos se constituirão seus Padroeiros com huma Missa quotidiana & tem hoje este Padroado os filhos de Domingos Barreiros bisnetos de Hieronyma Dias.
(…)
Muitos milagres se referem dos quaes individuarei dous. O primeiro foy, que embarcandose algũs Religiosos em hum barco de Cassilhas, que hiaõ a fazer uma festa paraaquellas partes, & levavaõ em sua companhia dous Cavalheiros, que sem duvida eraõ os q' os conduziaõ para a mesma festa; de repente se armou no riohũa taõ grande tormenta, que despedaçada, & levada pelos ventos a vela, ficaraõ todos taõ atemorizados, juntamente com elles os barqueiros, que já naõ davaõnada por suas vidas. Nesta grande afflicçaõ em que se achavaõ todos, os animou o Corista, (que tambem os acompanhava) dizendolhes que invocassem a sua Senhora da Lembrança, & lhe prometessem de ir a sua casa, que ella os livraria do perigo. Assim o fizeraõ; & no mesmo ponto parou a tormenta, sossegàraõ-se os mares, & ficando o mar em bonança,chegàraõ felizmente a terra, aonde obrigados à Senhora lhe foraõ dar as graças. Assentàraõ de lhe fazer huma festa, & ocompriraõ com toda a grandeza, como pedia obeneficio.
O Segundo milagre (que por tal se deve julgar) foy, que indo por aquellas partes o Conde de Atouguia em hum sege; o cavallo que o governava tomando ofreyo nos dentes o intentou despenhar, & levando-o fóra do caminho se hia a precipitar de hum paredaõ abaixo. Advertiraõlhe que invocasse a Senhora da Lembrança: fello assim, & o cavallo caindo em baixo se achou fóra das prizoens do sege, & este em cima seguro: sahio o Conde sem lezaõ: o cavallo naõ teve perigo, & o sege ficou saõ, & inteiro. Apè foy logo o Conde daras graças à Senhora, & dahi a breves dias lhe fez uma grande festa.
(…)
Na sua Capella & nas que ficaõ mysticas a ella se vem muytos quadros de mercês que a Senhora tem obrado & muitas memorias de cera que testemunhaõ outras muitas que obrou.
Finalmente a devoção da Senhora he hoje grande & ainda fora muito mayor se os Religiosos cuidarão de publicar as suas maravilhas.
Está hoje collocada em a segunda Capella do corpo da Igreja quando se entra nella da parte da Epistola em hum nicho no meyo do retábolo que he de muito boa talha dourada & guarnecida a Capella de ricos quadros de pinturas de Roma está com muita veneração cuberta com cortinas & com à mesma se descobre A Imagem da Senhorahe de rara fermosura tem o Menino Jesu em pé sobre as mãos & com muita graça está com o rosto inclinado para a Mây & na mesma forma a Senhora com olhos &attençaõ toda posta no Soberano Menino como quem lhe está fallando & ouvindo o que elle diz he de excellente escultura de madeira estofada tem mais de seis palmos a sua estatura. O q fica dito nos referirão aquelles muito Religiosos Padres indo aquelle Convento aonde vimos & veneramos esta milagrosa Imagem da Senhora».
(Santuário Mariano, Livro II: Título XII, 1707, pp. 308-311)
(3) Nossa Senhora do Perpétuo Socorro

(Altar de N.S. do Perpétuo Socorro)
N.S. do Perpétuo Socorro (2.ª capela do lado do Evangelho – lado direito) representa Nossa Senhora com o menino nos braços olhando para ela, e com o pé descalço ou com uma sandália a cair.
De origem ortodoxa o seu culto no mundo Católico surge sobretudo a partir do século XIX com a sua colocação na Igreja de Santo Afonso Maria Ligório e evangelização dos Padres Redentoristas, que Afonso Maria fundou.
(4) Nossa Senhora do Egipto

(Fuga para o Egipto)
A iconografia de N.S do Egipto, também chamada de N.S do Desterro, na representação da Fuga para o Egipto (na 2.ª Capela do lado da Epístola - direito), é uma representação rica em elementos iconográficos: Nossa Senhora com o menino nos braços em cima do burro, acompanhada atrás por São José, com o seu bastão e ambos com um chapéu de aba larga, e á frente conduzidos pelo Anjo.
É curiosa também a introdução de elementos chamados apócrifos, porque provenientes de descrições presentes nos evangelhos apócrifos, como por ex.º as ruínas das estátuas dos velhos deuses, ou a tamareira.
Aliás a Tamareira ou Palmeira é alusiva a um episódio relatado num dos evangelhos apócrifos em que Jesus manda que a tamareira se curve perante sua Mãe, estabelecendo-se a partir daí também uma relação entre a Palma e os vencedores e humildes, um pouco à imagem da tradição do mundo greco-romano.
Esta Capela esta associada a um Vínculo instituído por D. Isabel Ferreira em 1577, e que mais tarde foi anexado ao Morgado dos Tibaus de que Duarte Sodré tomou posse, em Novembro de 1712, por intermédio de Pedro de Brito de Carvalhaes (Maria Júlia de Oliveira e Silva, Fidalgos-mercadores no século XVIII: Duarte Sodré Pereira, 1992, p.27)
No Patriarcado de Lisboa conhecemos outros lugares de culto dedicados a Nossa Senhora do Egipto, como por exemplo:
- A Igreja e Convento de N.ª Sr.ª do Egipto e St.º António (Torres Novas), fundado em 1562;
- A Ermida ou Igreja de Ribafria (Palhacana, Alenquer), do séc. XVI, reedificada em 1753;
- A Ermida da Quinta do Sobral (Alverca), fundada em 1741 por D. Luís Severim de Noronha Manuel de Sousa e Meneses – Conde de Vila Flor & Copeiro Mor;
- A Ermida da Quinta do Egipto (Oeiras), que em 1707 pertencia a João Rebello de Andrade;
- A Ermida da Quinta do Lameiro (Carcavelos, Cascais), que em 1758 pertencia a Francisco Xavier de Mello, Secretário da Guerra;
(5) Imagem de Nossa Senhora da Apresentação e Cadeia

(Possível Imagem de N.S. da Apresentação e Cadeia)
O paradeiro desta imagem não é totalmente certo pois as descrições que dela temos não coincidem como nenhuma das imagens hoje presentes na Igreja.
Acontece como noutros casos que a perda de um dos elementos iconográficos não permite identificar com segurança a invocação de uma determinada imagem.
É no entanto provável que se trate da Imagem que está na Capela dos Vila Franca (do Campo).
Tinha uma Irmandade que participava na Procissão dos Passos.
A cadeia poderá estar associada aos grilhões que prendem os pecadores que Nossa Senhora, como Mãe de Jesus Libertador, vem libertar.
(6) Nossa Senhora do Patrocínio

(Altar de N.S. do Patrocínio)
Invocação pouco comum, embora profusa sobretudo no Brasil em igrejas associadas aos franciscanos. A sua imagem distingue-se pela existência de um ceptro, sem o qual, como acontece noutras imagens marianas, não se distinguiria de outras invocações.
Quer este altar quer o da outra da invocação de São José do Patrocínio, fronteiro, estão colocados nas Capelas do cruzeiro.
(Imagens actuais dos Altares de N.S. do Patrocínio e S. José do Patrocínio in:
A Capela de Nossa Senhora do Patrocínio foi mandada levantar pelo MRP Fr Francisco de Jesus Maria Sarmento Comissário Visitador da Venerável Ordem Terceira secular e Ministro do Convento em 1748, sendo a Imagem nela colocada em cerimónia solene no dia 14 de Julho desse ano, conforme se regista numa notícia publicada na Gazeta de Lisboa:
«Colocou-se a 14 do corrente em hum dos Altares colateraes da Igreja de N Senhora de Jesus dos Religiosos Terceiros pela grande devoçam e zelo do MRP Fr Francisco de Jesus Maria Sarmento Comissário Visitador da Venerável Ordem Terceira secular e Ministro do dito Convento huma formosíssima e devotíssima Imagem da Virgem N Senhora com o titulo do Patrocínio o que se fez com todas as solemnidades de luminárias procissam de triunfo com grande numero de figuras de que se imprimiu huma relaçam muy exacta e hum oitavario festivo estabelecendo-se também huma nova Irmandade destinada ao especial culto da mesma Imagem para cujo efeito se benzeu no mesmo Domingo o seu standarte. No primeiro dia celebrou a Missa e pregou com a sua costumada eloquência erudiçam e acerto o MRP Fr Francisco de Jesus Maria Sarmento a que assistiu o Príncipe nosso Senhor e os Sereníssimos Senhores Infantes D. Pedro e D. Antonio pregando nos dias seguintes com repetidos aplausos o M R P M Fr José Manuel da Conceiçam Lente de Véspera da Sagrada Theologia no mesmo Convento».
(Gazeta de Lisboa, 1748, N.º 31, 30 de Julho de 1748)
Nas Capelas de Nossa Senhora e de São José do Patrocínio mandou Francisco Ferreira da Silva, morador na rua de S. José, estabelecer Missas Quotidianas, conforme escritura de 14 de Fevereiro de 1761 lavrada no Cartório do Tabelião Inácio Correia de Sousa e Andrade (DGARQ/ADL, CNL, Of.º act. 11A, L. 19, f. 27).
A Escultura de S. José do Patrocínio é copiada de um desenho de Vieira Lusitano ao que parece por António Joaquim Padrão.
(Luís Gonzaga Pereira, "Descripção dos Monumentos Sacros de Lisboa", 1833-1840)
(7) Nossa Senhora da Conceição da Casa

(Altar de N.S. da Conceição da Casa nos anos 60 do século XX)
Do lado esquerdo da Capela mor, a imagem de Nossa Senhora da Conceição da Casa, uma Imaculada Conceição de grande porte, cuja imagem assume perfeitamente todos elementos iconográficos desta devoção que foi difundida em larga medida graças aos Franciscanos.
Pensamos até que esta designação «da Casa» possa estar associada à imagem original da Casa dos Terceiros de São Francisco, por oposição com a outra imagem de Nossa Senhora da Conceição (da Escada).
Ao que parece o retábulo de Nossa Senhora da Conceição, terá sido feito por José Freire e Baltazar dos Reis Couto, conforme encomenda escriturada em 8 de Novembro de 1718.
(Imagem de N.S. da Conceição actualmente ver:
Fontes das Principais imagens:
Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian > Coleções > A talha em Portugal - COMMONS - (Portuguese woodcraving)
Lisboa, 20 de Maio de 2011
RUI M. MENDES
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sexta-feira, 29 de abril de 2011
Lugares da Charneca de Caparica (1): A Quinta de Monserrate
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terça-feira, 19 de abril de 2011
Paisagens rurais da Sobreda: Roteiro Histórico
(Nota: O conteúdo deste texto foi revisto após a 1.ª edição, ver revisões no fim do mesmo)
No passado dia 17 de Abril organizou o Centro de Arqueologia de Almada, apoiado pela Junta de Freguesia da Sobreda, uma visita guiada pelo Dr. Francisco Silva pelas "Paisagens Rurais da Sobreda" com percurso por algumas das antigas Quintas e paisagens rurais da freguesia da Sobreda, abordando aspectos da história local, arquitectura tradicional e memórias associadas ao espaço.
Tratou-se de um agradável passeio em grupo (com cerca de 20 inscritos) de cerca de 3 km em 2h30m, de dificuldade mediana, e em que tomámos contacto com uma parte das antigas quintas e de alguns elementos da arquitectura e história rural da Sobreda e do Vale da Sobreda.
Para memória futura, ou simplesmente para divulgação, farei aqui um breve resumo da visita seguindo o roteiro adoptado, juntando-lhe alguns apontamentos históricos que nos foram transmitidos durante a visita, e acrescentando outros extraídos de alguma da bibliografia existente sobre a região, e de algumas fontes históricas inéditas e que enumero no fim do post.
É um facto que muitas vezes os visitantes, e até mesmo os residentes do concelho de Almada passam pelo nosso património sem se aperceber da sua riqueza histórica e artística!
Início do passeio:
SOBREDA
(1) Largo do Rio
(Planta Cadastral do Largo do Rio)
O Largo do Rio, originário da confluência de 2 linhas de água, é uma das zonas mais antigas da Sobreda, sendo circundado por diversas quintas importantes e formando um núcleo urbano conhecido como Sobreda de Baixo, que é por assim dizer, o Centro histórico da vila da Sobreda.
Das antigas quintas vizinhas ao Largo, uma das mais importantes, era sem dúvida a Quinta do Convento, onde Fernão de Castilho e Mendonça, filho de Valentim de Lobo Castilho, Provedor de Seguros, edificou entre 1660 e 1668 um Convento e uma Igreja dedicados a N. Snr.ª da Assunção, e depois doados aos Padres Agostinhos Descalços junto com a sua quinta (Mendes, 2010, p. 96).
Do convento sabemos que tinha grandes acomodações para vários frades e uma excelente biblioteca. Da Igreja pouco ou nada se conhece. Da quinta temos uma descrição de 1821 onde se diz que tinha «boas terras de vinha, excelentes parreiras e abundância de árvores de caroço e algumas de espinho, canas para arranjo das parreiras e para vender, boa horta, dois grandes poços, cavalha, xica, lagar e boa casa de adega» (Diário da Regência, Sup. de 14.4.1821).
O convento foi extinto em 1833, quando nele residiam apenas 3 frades, sendo depois vendido junto com a quinta. A venda do convento foi sem dúvida umas das principais causas para a sua ruína e já na primeira metade do século XX o Conde dos Arcos diz que do antigo convento já só sobrava o velho poço de boa água, que servia aos Agostinhos, e uma cantaria de artística cruz esculpida, caída por terra. Hoje contudo já nem estes vestígios são visíveis, sendo tudo um grande canavial!
Além da Quinta do Convento circundam e circundavam o Largo do Rio outras propriedades rurais, como a Quinta da Genovesa (originária da 1.ª metade do séc. XVIII), a Casa do Outeiro e a Quinta da Caneira (séc. XVIII), do lado norte, a Quinta do Caiado (séc. XVII-XVIII) e a Quinta de Santo António ou Quinta de Cima (séc. XVII-XVIII), do lado poente e do lado nascente além da Quinta do Convento havia ainda a grande Quinta de Baixo, que à semelhança da Quinta de Cima fazia parte do Morgado dos Zagalos.
Na Quinta de Santo António está implantado o Solar dos Zagalos, propriedade municipal (desde 1980) constituída por uma magnífica residência, jardins com duas pequenas ermidas, e uma rica Capela anexa implantada na ala virada para o Largo público e dedicada a Santo António (ver foto abaixo).

(Capela do Solar dos Zagalos e Quinta de Santo António)
(B) A Capela ou Ermida de St.º António da Sobreda foi edificada originalmente em 1644-1645 por Matias de Oliveira e sua mulher Luísa Rebela, que eram bisavós de Rodrigo de Oliveira Zagalo, proprietário da Capela e Solar dos Zagalos no primeiro quartel do século XVIII, período em que a mesma terá sido melhorada.
Este Rodrigo de Oliveira fundou aqui também um Morgado, no ano de 1745, de que foi primeiro sucessor Francisco Carneiro de Morais Araújo e Mello, Moço Fidalgo, casado com a filha única de Rodrigo, D.ª Josefa Teresa Zagallo, o qual colocou na quinta um brasão (ver foto abaixo) com as armas dos Carneiros (com banda coticada e carregada de três flores de lis, entre dois carneiros) e Zagallos (com dois crescentes, duas estrelas e dois dortões, todas as pegas dispostas em fascia).

(Brasão dos Carneiros e Zagalo)
Foram diversas as gerações de Zagalos que aqui residiram de forma mais ou menos permanente até cerca de 1921, quando esta quinta foi adquirida por António José Piano.
(2) Capela de Nossa Senhora do Livramento
A Sobreda resulta da união de 2 núcleos antigos: a Sobreda de Baixo, junto ao Largo do Rio, e a Sobreda de Cima, na estrada que liga o Vale de Figueira ao Arieiro.
Entre estes dois núcleos encontramos, sobranceira ao Largo do Rio, a Capela dedicada a Nossa Senhora do Livramento (ver foto abaixo), a qual foi edificada pelos moradores da Sobreda em 1751 e restaurada por uma Comissão reparadora em 1888, com um subsídio de 450$000 réis oferecido pelo Governo.
Entre os elementos artísticos de relevo nesta Capela encontramos, além da imagem da padroeira, as duas antigas imagens de N.ª Snr.ª da Assunção (originária do Convento da Sobreda) e a de S. Sebastião, que no século XIX era a principal festividade da Sobreda organizada pela Irmandade de N.ª Snr.ª do Livramento (aqui sedeada desde 1753).

(Capela de Nossa Senhora do Livramento na Sobreda)
S. Sebastião foi o primeiro padroeiro dos povos da Vara da Sobreda, pois já na primeira metade do século XVII se regista aqui uma Ermida dedicada a este santo, edificada, ao que parece, pela própria Confraria da Concórdia (fabriqueira da Igreja Paroquial da Caparica) para que nela se dessem os sacramentos aos habitantes da Sobreda, sabemos isto por um assento de casamento registado em 1636 (DGARQ/ADS, Caparica, Casamentos, L.º 1, f.106) e ainda por uma Provisão do Cabido da Sé de Lisboa de 1662, onde se diz ser uma ermida antiga e que nela sempre se tinha dito missa.
(3) Sobreda de Cima

(Sobreda de Cima)
No núcleo de Sobreda de Cima nota-se a predominância de habitações rurais originárias do século XIX, princípios do século XX, isto por oposição à Sobreda de Baixo, onde, como vimos os núcleos apresentam ainda características das quintas originais da segunda metade do século XVII, primeira metade do século XVIII.
Entre as habitações mais antigas encontramos ainda vestígios das cercas e valados das velhas quintas aqui existentes, e em que se foram aproveitando os materiais disponíveis localmente, por isso é muito raro os elementos em alvenaria, quase só visíveis nas habitações mais ricas.
(4) Quinta de S. José
Quinta já do século XX, hoje em ruínas.
(5) Quinta da Vitória
Quinta já do século XX, hoje convertida em espaço de restauração.
(6) Vivenda de N.S. de Fátima (ver foto abaixo)
Residência da primeira metade do século XX detém uma posição invejável com uma agradável vista quer sobre a Sobreda, quer sobre uma parte do concelho de Almada.

(7) Casa Saloia (ver foto abaixo)
Próximo temos um exemplar de casa saloia que se destaca pelo tipo e materiais de construção, a forma do telhado e a planta quadrangular.


(8) Quinta do Lagar (ver foto abaixo)
Quinta citada no fim do século XIX por Vieira Jr., encontra-se ainda em bom estado de conservação.

(A) Segundo Francisco Silva, esta quinta pertence actualmente à D.ª Maria Seixas, e o nome da quinta deriva de um Lagar de Azeite de que ainda restam diversos elementos espalhados pela propriedade, tais como mós e restos de engenhos. Na divisão correspondente ao lagar propriamente dito existia um Nicho dedicado ao Espírito Santo, protector dos trabalhadores na produção de azeite, pois era normalmente representado pela pomba que carrega o ramo da oliveira, e é utilizado na Bíblia como o Símbolo da presença de Deus no Espírito Santo.

(9) Alto do Lazarim
Ao cimo da Rua da Quinta da Franceza encontramos o núcleo do Alto do Lazarim, onde ainde se vêem vestígios de uma velha propriedade agrícola (ver foto abaixo).
Este topónimo "Lazarim", que acabou por se extender a toda a área situada no cruzamento das estradas da Caparica para a Charneca e da Sobreda para a Vila Nova, parece derivar de um tal Manuel Mendes Lazarim, que em 1751 era proprietário de uma «fazenda com vinhas no Pinhal de Val de Figueira no Alto do lugar da Sobreda». Lazarim é uma pequena povoação e antiga vila medieval no concelho de Lamego, e o apelido do Sr. Manuel poderá bem ser fruto da sua origem beirã.
Não é aliás incomum no concelho de Almada que a origem da toponímia local derive do nome ou apelido de proprietários de antigas quintas, fazendas ou casais, basta citar os exemplos do Laranjeiro, Feijó, Raposo, Filipa de Água, Fumega, Porto Brandão, Corvina, ou ainda na freguesia da Sobreda, o caso do Alto do Índio (a partir da Quinta do Índio), entre outros!

VALE DA SOBREDA
(10) Arieiro do Vale da Sobreda
Atravessando a estrada nova que liga a Sobreda ao Lazarim entramos numa vasta zona compreendida entre as Casas Velhas, S. Francisco dos Matos, S. Macário, Lazarim e Vale da Sobreda que era conhecida desde tempos antigos como o «Arieiro», a qual pelo tipo de terrenos não era muito propícia à exploração agrícola, embora fosse rica em vegetação silvícola.
Ao passear por esta zona encontramos diversas espécies de fauna, umas autóctones, outras importadas, das primeiras destacam-se sobretudo os medronheiros (ver imagem abaixo).
Embora actualmente esta zona esteja largamente urbanizada, foram aqui edificadas, sobretudo a partir do terramoto de 1755, algumas quintas de recreio:
(11) Quinta do Pocinho
Pereira de Sousa diz que a Quinta do Pocinho fica entre as Quintas de S. Gabriel e da Matosa, isto baseado na cartografia dos anos 60, acrescentando que pertenceu a José Duarte Pedroso Júnior que foi diplomata de carreira.
No entanto de acordo com a Cartografia militar de 1904 a actual Quinta de S. Gabriel ainda não existia no início do século XX e deve ter sido construída depois em terrenos da antiga Quinta do Pocinho, a qual terá existido entre o núcleo da Graciosa e o Arieiro.
O nome «Pocinho» deverá ter origem de um surgimento de água que existiria neste local.
O Conde dos Arcos diz que «Quinta da Graciosa Pequena, ao Pocinho, foi da Rainha Dona Carlota Joaquina (ver figura abaixo) e era enfiteuta dos Condes dos Arcos, que não ousaram cobrar o foro enquanto o domínio útil pertenceu à soberana».

Dona Carlota Joaquina Teresa Caetana de Bourbon e Bourbon (1775-1830) foi infanta de Espanha, princesa do Brasil e rainha de Portugal por seu casamento com D. João VI de Bragança.
Em 1839 na sequência do Inventário dos bens que tinham ficado da sua herança a Quinta do Pocinho foi colocada em praça pelo valor de 750$000 réis e era então composta de «casas para habitação, adega, vinha, nora, horta, etc. toda murada» (Diário do Governo, Ed. 25.5.1839).
(12) Quinta de S. Gabriel
Palacete da 1.ª metade do século XX, pouco se conhece sobre a sua origem e proprietários, sendo que infelizmente um incêndio no fim dos anos 90 do século passado destruiu uma boa parte do espaço.

(Óculo da Quinta de São Gabriel)
(13) Quinta do Bandeira ou da Graciosa
Próxima à Quinta de São Gabriel, temos a Quinta do Bandeira ou da Graciosa, uma grande propriedade e uma das poucas que no concelho de Almada ainda se encontram na posse dos descendentes dos seus proprietários originais do século XVIII: Os Condes de Porto Covo da Bandeira (veja-se o marco de propriedade - imagem do lado direito).O Conde dos Arcos diz-nos que em 1770 esta quinta foi comprada por Jacinto Fernandes Bandeira, importante capitalista originário do Minho, que recebeu entre outros, os títulos de Familiar do Santo Ofício (1769), Cavaleiro Professo da Ordem de Cristo (1774), Fidalgo da Casa Real (1794), Alcaide-mor de Vila Nova de Milfontes (1803), e 1.º Senhor e Barão de Porto Covo da Bandeira (1805), sendo considerado o primeiro barão financeiro.
Jacinto Fernandes Bandeira, por via das suas actividades comerciais e financeiras, tornou-se num dos homens mais ricos e poderosos de Portugal, tendo em conjunto com o Barão de Quintela (seu grande amigo) e com os Condes de Sobral, obtido forte influência junto da Coroa de Portugal concedendo-lhe inclusive alguns importantes empréstimos.
Falecido em 1806, sucederam-lhe os seus sobrinhos, filhos da sua irmã D. Maria Josefa Christina Bandeira, primeiro Jacinto Fernandes da Costa Bandeira (1777-1818) e depois o irmão deste, Joaquim da Costa Bandeira (1786-1853).
Joaquim da Costa Bandeira (ver figura abaixo), que foi agraciado com os títulos de 2.º Barão (1822), 1.º Visconde (1835) e 1.º Conde de Porto Covo da Bandeira (1843), continuou os negócio do tio, tendo sido entre outros, Director da Companhia de Pernambuco e Paraíba e o 1.º Director do Banco de Lisboa (1821).
Falecido em 1806, sucederam-lhe os seus sobrinhos, filhos da sua irmã D. Maria Josefa Christina Bandeira, primeiro Jacinto Fernandes da Costa Bandeira (1777-1818) e depois o irmão deste, Joaquim da Costa Bandeira (1786-1853).
Joaquim da Costa Bandeira (ver figura abaixo), que foi agraciado com os títulos de 2.º Barão (1822), 1.º Visconde (1835) e 1.º Conde de Porto Covo da Bandeira (1843), continuou os negócio do tio, tendo sido entre outros, Director da Companhia de Pernambuco e Paraíba e o 1.º Director do Banco de Lisboa (1821).

(1.º Conde de Porto Covo - pintura a óleo de José Rodrigues)
Era altamente considerado pela Coroa, conforme se regista no Decreto de concessão do título de 2.º Barão de Porto Covo da Bandeira:
«Attendendo á franqueza e patriotismo com que Joaquim da Costa Bandeira se tem prestado a todos os sacrificios e serviços úteis á Causa Nacional e esperar delle a continuaçao dos seus mesmos serviços e patriotismo querendo dar lhe uma prova da minha benevolencia eda contemplaçao que me merece hey por bem fazer lhe mercê do titulo de Barão de Porto Covo de Bandeira em verificaçao da segunda vida concedida a seu Thio Jacinto Fernandes Bandeira primeiro Barão do dicto titulo e outro sim de uma Commenda honoraria da Ordem de Christo Palacio de Queluz em 26 de Fevereiro de 1822. Com a Rubrica d SM»
(Diário do Governo, A.º 1822, N.º 58, 9.3.1822)
Além desta quinta, que Pereira de Sousa nos informa já se designar por Quinta do Bandeira em 1813, os Bandeiras eram proprietários de mais 4 prazos foreiros aos Condes dos Arcos.
Tem anexa uma grande Capela (ver foto abaixo) designada em 1806 como a «Ermida de N.ª Sr.ª da Graça, na Quinta da Graciosa, do Ilustríssimo Alcaide Mor da Vila de Milfontes e Senhor de Porto Covo da Bandeira» e em 1838 como a «Capela de S. Clemente, na quinta dos Bandeiras» (DGARQ/ADS, Caparica, Casamentos, L.º 10, f. 51. / L.º 13, f. 169).Admite-se que, pela sua posição excêntrica, a capela seja posterior à quinta e solar, sendo até possível, como alguns autores admitem, que tenha sido transposta para aqui a capela original da aldeia de Porto Covo (Andrade, 2001).
A planta da nova povoação de Porto Covo construída por ordem de Jacinto Fernandes, data do período de 1789~1794 e está assinada por Henrique Guilherme de Oliveira, filho do arquitecto Joaquim de Oliveira.
O Conde dos Arcos descreve a capela como contendo sobre o altar um painel alusivo ao Orago da capela e as relíquias de São Clemente, que provavelmente teriam vindo da capela da Quinta do Baixo dos senhores do Morgado da Caparica (nesta quinta existiram muitas relíquias de santos que foram oferecidas pelo papa Pio IV a Lourenço Pires de Távora no séc. XVI).
Da fachada simples tipicamente pombalina da capela destaca-se apenas como elemento decorativo os fogaréus.
Está incluída na Quinta da Graciosa a antiga Quinta de Santo António, propriedade próxima às Casas Velhas, e que terá servido de residência temporária ao poeta João de Deus (1830-1896) no fim do século XIX.

(Capela da Quinta da Graciosa)
(14) Quinta do Vale / [antiga] Quinta do Guarda-mor
A Grande Quinta do Vale, hoje desaparecida, era uma das principais propriedades da Azinhaga do Vale da Sobreda (ver planta abaixo), situada mais ou menos a meio da mesma, do lado norte da estrada.
Vieira Jr diz que foi edificada em 1755 pelo Sr. Diogo Duarte Vieira, Cavaleiro da Ordem de Cristo, tendo passado depois aos seus descendentes, um dos quais, Joaquim Duarte Vieira, foi Guarda Mor da Saúde Pública, daí o nome pela qual também era conhecida. Certamente saberá do que está falar uma vez que se tratava de um seu antepassado.
Duarte Joaquim Vieira, filho de Diogo Duarte Vieira, foi também um dos moradores da Sobreda que encabeçou o movimento de luta contra o direito de cobrança de impostos pelo Marquês de Marialva no suposto território do Reguengo da Caparica, e que aquele fidalgo havia arbitrariamente estendido para lá dos seus devidos limites até ao Vale da Sobreda.
Por seu lado Vieira Jr., ou melhor, Duarte Joaquim Vieira Júnior, neto do anterior, foi autor da importante monografia "Villa e Termo e Almada", publicada em 1896, e conhecida por ser uma das mais antigas publicações sobre a história do nosso concelho, e que infelizmente ficou incompleta (só foi publicado o 1.º volume, dedicado à Caparica, ficando por publicar um 2.º e 3.º volumes sobre a vila de Almada e Amora respectivamente).
Por dificuldades econónimicas a propriedade da Quinta do Guarda-Mor foi vendida pelos Vieiras a Joaquim Marques Ferreira, que em 10 de Julho de 1887 foi agraciado com o título de Visconde do Vale da Sobreda, tendo-lhe sucedido na posse da quinta a Sr.ª Viscondessa, já viúva em 1896.
Foi na Azinhaga, mais exactamente na sua fazenda do lugar do «Arieiro», que o Padre Francisco António da Silva, Clérigo do Hábito de S. Pedro, morador em Lisboa junto à Sé, edificou em 1736 uma Ermida dedicada a N.ª Snr.ª dos Enfermos (cf. escritura de dote de 26 de Agosto do mesmo ano), a qual depois, Diogo Duarte Vieira terá reedificado e dedicado a N.ª Snr.ª da Penha de França (cf. assento de casamento de 22 de Dezembro de 1762) (DGARQ/ADS, Caparica, Casamentos, L.º 7, f. 77).
(15) Quinta do Pinheiro
Em frente à Quinta do Guarda-Mor fica esta quinta já referida por Vieira Jr. em 1896, era então propriedade do Sr. Vicente dos Santos, que nela tinha uma mercearia que era lugar afamado pela qualidade dos seus vinhos.
(16) Quinta de S. Lourenço
Quinta já do século XX hoje transformada em área residencial.
(17) Quinta de St.ª Teresinha / [antiga] Quinta das Francesas
Quinta já do século XX hoje transformada em área residencial.
Num dos taludes que limita a propriedade, à beira da estrada, encontramos aflorações geológicas bastante antigas com muitos vestígios fósseis (ver foto abaixo), o que dá uma ideia muito interessante acerca do que seria esta região em tempos recuados.

(Vestígios fósseis)
(18) Quinta do Caiado
No seguimento da antiga estrada ou azinhaga que ligava o sítio das Casas Velhas à Sobreda, ao atravessarmos a estrada nova, deparamos, já no caminho de volta ao Largo do Rio, com uma pequena vereda que antigamente seria uma estrada muito mais ampla e na qual fica o portão de entrada da antiga Quinta do Caiado.
Neste portão destacam-se 2 elementos: a cruz, indicador da existência de uma capela no interior da quinta, e o brasão (ver foto abaixo), que o Conde dos Arcos descreveu:
«As armas, que o encimam, são esquarteladas, tendo, no primeiro e quarto, um elmo acompanhado dum lobo e dum lebréu coleirado, e em chefe, três folhas de golfão; nos quartéis contrários, assenta, estendida, uma águia».

(Brasão dos Caiados e Azevedos)
Este brasão será o que foi concedido a António Caiado de Gamboa por Carta de 20 de Julho de 1680, pois nele constam as armas esquarteladas dos Gamboas e Aguiares, com divisa de cardo de ouro florido de Verde (Borrego, 2003, p. 37).
Este António Caiado Gamboa, que faleceu na sua quinta da Sobreda em 5 de Março de 1683, sendo sepultado no Convento dos padres Agostinhos Descalços desta localidade (Vieira, 2006, p. 86), era neto de Nuno Caiado de Gamboa e Felícia Aguiar, moradores na vila de Povos, e filho de outro António Caiado de Gamboa e de sua mulher Maria Teixeira de Almeida, a qual em 1655 vinculou os seus bens (incluindo a quinta) a uma Capela de missa quotidiana na Ermida de N.ª Snr.ª do Rosário da mesma quinta (Mendes, 2010, p. 96).
Esta Ermida de N.ª Snr.ª do Rosário, hoje desaparecida, foi a capela original da quinta do Caiado, fundada em 1632 pelo Desembargador António de Barros, morador na cidade de Lisboa, na rua da Barroca, de trás do Convento de S. Domingos de Lisboa, e pela sua mulher Maria de Almeida, possivelmente pais de Maria Teixeira de Almeida.
Em 1726 a quinta do Caiado pertencia a Paula Ribeira, como viúva de Valentim António Caiado de Gamboa.
O Cura da Caparica o Padre José António da Veiga escreveu em 1758, que a quinta tinha sido de Frei Manuel Caiado, o qual terá sido o último Caiado proprietário da mesma.
Segundo se lê no Tombo da Capela feito em 1789, com o terramoto de 1755 a ermida desapareceu e as casas da quinta ficaram totalmente arruinadas, restando apenas as paredes (o brasão), tendo sido depois reedificadas por Domingos Rosa, rendeiro nomeado pelo Juízo das Capelas da Coroa, para administrar a Capela de Maria Teixeira de Almeida à qual a quinta estava vinculada. Foi este Domingos Rosa que edificou depois a Capela de Santo António do Caiado, bem mas isso já é outra história e ficará para um próximo passeio.
.Nota Final:
Como se vê num pequeno circuito encontramos diversos elementos patrimoniais e paisagísticos ricos de história, pena é que a degradação e a incúria nos tenham impedido de fruir alguns desses antigos elementos patrimoniais, e que ainda alguns destes espaços não possam ser visitados.
Rui M. Mendes
Caparica, 18 de Abril de 2011
Revisões:
(A) 4.9.2011 – novos dados sobre a Quinta do Lagar.
(B) 7.9.2011 – introdução de uma referência à ligação entre Rodrigo de Oliveira Zagalo, proprietário da Quinta de St.º António no século XVIII e Matias de Oliveira fundador da Capela de St.º António em 1645 (era bisneto e não sobrinho neto).
Fontes históricas:
(1632) «Treslado da Escritura de Dote da Ermida de António de Barros», in AHPL, Câmara Eclesiástica de Lisboa, Registo Geral, Lv. VII.º (UI 305), f. 85
(1645) «Treslado da Escritura de Dote que fez Matias de Oliveira à Ermida da sua quinta da Sobreda», in AHPL, Câmara Eclesiástica de Lisboa, Registo Geral, Lv. VIII.º (UI 316), f. 163v
(1662) «Registo de uma Provisão de licença para se continuar a dizer missa na Ermida de São Sebastião da Sobreda», in AHPL, Câmara Eclesiástica de Lisboa, Registo Geral, Lv. XIº, f. 175.
(1736) «Escritura de Dote que faz o Padre Francisco António da Silva à sua Ermida», in DGARQ/ADS, Cartórios Notariais de Almada, Cx. 4399, Lv.º 84, ff. 95v-96
(1751) «Escritura de Dote para casamento da filha de Manuel Mendes Lazarim», in DGARQ/ADS, Cartórios Notariais de Almada, Cx. 4403, Lv.º 104, f. 33
(1758) «Relação Topográfica desta Freguesia de Nossa Senhora do Monte de Caparica» pelo Pe. José António da Veiga – cit. Alexandre M. Flores, «Vila e Termo de Almada nas Memórias Paroquiais de 1758», in Anais de Almada, Almada: Arquivo Histórico Municipal, n.º 5-6, 2002-2003, pp. 23-76.
(1789) «Treslado do Tombo da Capela de Maria Teixeira de Almeida», in DGARQ/TT, Hospital de São José, Lv. 513, f. 88
(1833) «Decreto de Extinção do Convento de N.ª Sr.ª da Assunção dos Agostinhos da Sobreda», in Crónica Constitucional de Lisboa, Ed. 24/10/1833
(1904) Carta dos Arredores de Lisboa 1:20.000, in IGEOE – Instituto Geográfico do Exército,
(1950) Carta Militar 1:25.000 de Lisboa e Barreiro, in IGEOE – Instituto Geográfico do Exército
Bibliografia:
ANDRADE, Sara, Solar da Quinta do Bandeira (PT031503080059), in
http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=10564, 2001
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BORREGO, Nuno Gonçalo Pereira, Cartas de Brasão de Armas: Compilação, Lisboa: Guarda Mor, 2003
MENDES, Rui M., Caparica: Igrejas e Ermidas do Século XV ao Século XX [texto poli copiado], Almada: Arquivo Histórico Municipal, 2009
MENDES, Rui M., «Património Religioso de Almada e Seixal: Ensaio sobre a sua História no Século XVIII», in Anais de Almada, Almada: Arquivo Histórico Municipal, n.º 11-12, 2008-2009, pp. 67-138, 2010
PORTO COVO, Junta de Freguesia de, A História de Porto Covo, in
http://www.fportocovo.pt/AFreguesia/Historia/Paginas/Historia.aspx, s/d
SOUSA, Raul H. Pereira de, Almada: Toponímia e História, Almada: Câmara Municipal, 2003
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VIEIRA, Aires dos Passos, Conheça o passado histórico da região onde vive: sociedade, população, saúde e mentalidade dos concelhos de Almada e Seixal no séc. XVII, Lisboa: Colibri, 2006
VIEIRA JR., Duarte Joaquim, Villa e Termo de Almada: Apontamentos Antigos e Modernos para a História do Concelho, Lisboa: Typographia Lucas, 1896
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