quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Notícia Inédita sobre Duarte Lobo

Duarte LOBO (c. 1565 + 1646), natural, ao que tudo indica, de Lisboa *, foi o «mais famoso compositor português do seu tempo», um dos expoentes da "época dourada" da polifonia portuguesa, mestre de capela e quartanário * da Sé de Lisboa, nomeado em substituição de Baltazar Garcia, falecido em 23 de Janeiro de 1591, aí ensinou música no Colégio do Claustro, onde se manteve pelo menos até 1639. Mais tarde dirigiu na capital a capela do Seminário de Santa Catarina (equivocadamente apelidado por alguns autores de São Bartolomeu), que o Cardeal D. Henrique fundara em 1566 com o patrocínio de D. Catarina.

Nos cerca de quase 50 anos em que esteve à frente do Coro da Sé de Lisboa, além das obras publicadas, que assinava como Eduardus Lúpus, referidas nas suas biografias, e da data da sua morte, registada nos Livros de Óbitos da Freguesia da Sé de Lisboa em 24 de Setembro de 1646 (ver abaixo), não são muitos os elementos biográficos certos de Duarte Lobo, nomeadamente dados sobre a sua família e bens.
José Augusto Alegria, na obra Polifonistas Portugueses (1984), cita os apontamentos do Pe. Luís Montez Matoso *, onde este registou que o Padre Duarte Lobo fez em 1639, depois do mês de Junho, era já então Reitor do Seminário da Sé, uma dotação de 600$000 reis a favor de uma sua sobrinha, Catarina de Gouveia, filha de Heitor de Gouveia, Cavaleiro Fidalgo, e de Jerónima de Pina, que professara no Convento de Chelas, onde vivia uma sua tia (provável irmã de Duarte Lobo) com 38 anos de profissão religiosa (ALEGRIA, 1984, p. 19).

Inédita parece ser a referência à Quinta de Duarte Lobo em Sintra, «junto ao Linhó», referida numa Provisão e Escritura lançadas em 1644 nos Livros de Registo da Chancelaria ou Câmara Eclesiástica de Lisboa, hoje existentes no Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa, referem estas que o então Reitor do Colégio do Seminário de Lisboa e Quartanário da Santa Sé de Lisboa era proprietário de uma quinta na freguesia São Pedro de Penaferrim, junto a Sintra, onde mandou edificar nesse ano uma ermida dedicada a São Sebastião. Tratava-se muito provavelmente da conhecida Quinta da Fonte, no Linhó, onde se regista uma ermida da mesma invocação, reedificada em 1759 pelo seu então proprietário Eusébio da Cunha das Vilas Boas, e que hoje, já bastante modificada, quinta e capela, pertencem às irmãs religiosas Doroteias.
A provisão, dada em 10 de Outubro de 1644, concedia licença para que a ermida fosse benzida para nela se dizer missa, e a escritura era um público instrumento de dote e obrigação dos rendimentos da vinha da quinta a 3$000 reis em cada ano para a fábrica da mesma ermida, o qual fora feito em 24 de Setembro de 1644 nas notas de Marcos de Sousa, tabelião de notas na vila de Sintra (Patriarcado de Lisboa – Registo Geral da Câmara Eclesiástica, Livro VIII, fls. 149-149v).

QUINTA DA FONTE – esta antiga casa de vilegiatura, hoje casa religiosa, terá pertencido ao famoso compositor polifónico Duarte Lobo (Foto Vítor Oliveira, reproduzida com autorização do autor, pub. orig: https://www.flickr.com/photos/vitor107/13765689964/in/photostream/)

Sabemos, por alguns episódios relatados pelos seus biógrafos, que Duarte Lobo era «muito favorecido do Duque (de Bragança) que por extremo era afeiçoado a Música» e além disso, pelo modo como, enquanto Mestre do Coro da Sé, recebeu solenemente em 21 de Maio de 1639, o Arcebispo de D. Rodrigo da Cunha, regressado de Madrid após ter rejeitado o barrete cardinalício de D. Filipe IV, começando «a entoar o salmo In exitu Israel de Aegipto, e ao perpassar por alguns castelhanos, com os olhos fitos neles, reduplicava em voz alta de populo barbaro»; será fácil entender que as simpatias de Lobo pendiam pouco para o lado de Castela. Talvez isso explique a sua devoção a São Sebastião, que como se sabe, era santo a que os últimos soberanos da dinastia de Avis dedicavam particular culto.

De qualquer modo fica aqui o registo desta nota biográfica inédita, que nos dá mais uma faceta de uma das maiores figuras da história da música portuguesa, que junto com outros compositores como Manuel Mendes, Frei Manuel Cardoso, Manuel Rebelo e Diogo Dias Melgás, se destacou nas chamada da "época dourada" da polifonia portuguesa.


Rui Manuel Mesquita Mendes
CAPARICA, 16 de Setembro de 2014

NOTAS
* Lisboa – as notícias de alguns autores, que lhe atribuem naturalidade da vila de Alcáçovas, onde teria nascido em 19 de Setembro de 1575, parecem destituídas de fundamento, referindo-se seguramente a um outro clérigo homónimo, conforme nos refere José Augusto Alegria, até porque em algumas fontes da época Lobo indica ser cidadão de Lisboa, já quanto à data do seu nascimento, pela época em que professou, estima-se que teria nascido entre 1564 e 1565.
* Quartanário – clérigo beneficiário da quarta parte de uma prebenda canonical.
* Luís Montez Matoso – clérigo nascido em Santarém, viveu desde 1701 a 1750, formado no Colégio dos Jesuítas, passou a Coimbra, onde não concluiu a formatura, professou nos Terceiros franciscanos, transitando depois para a Ordem de Malta. Infatigável investigador de arquivos e bibliotecas, escreveu um grande número de obras de história religiosa e profana, de que se imprimiu em vida Historia do Senhor roubado de Odivelas (1745, 1751), Notícia da fonte das Almas … de Santarém (1748), e Relação do horroroso estrago e ruina succedida no Mosteiro das Religiosas de S. Domingos, das Donas de Santarém (1742). Outros manuscritos, depois dispersos pela Biblioteca Pública de Évora e Biblioteca Nacional, ou permanecem inéditos, como o Index das Notas dos Vários Tabeliães de Santarém, ou só foram impressos nos últimos cem anos, como o Index das notas de varios tabelliães de Lisboa, entre os annos de 1580 e 1747 (1930-1949), Anno Noticioso e histórico [1740-45] (1934), Algumas notícias referentes à Universidade e ao Corpo Académico [1740] (1965), Memórias para a história da vila de Torres Novas [1745-46] (2008), e Santarém Ilustrada [1738] (2011). Em Santarém, onde foi escrivão da Câmara e notário apostólico, bem como o primeiro presidente da academia ‘Aventureiros Scalabitanos’, fundada em agosto de 1745, apresentando um “método fácil e instrutivo para os que se quiserem aplicar ao estudo da História”, foi ainda "correspondente" da Gazeta de Lisboa, para onde enviou muitas notícias inéditas e curiosas.

BIBLIOGRAFIA
José Augusto ALEGRIA – Polifonistas Portugueses (1984).

PEÇA MUSICAL

RETRATO DE DUARTE LOBO

ÓBITO DE DUARTE LOBO
«Aos vinte e quatro de setembro de seiscentos e quarenta e seis faleceo Duarte Lobo quartanario desta See, esta sepultado em Sancto Eloi, o quartanario Henrique de Souza Serram he testamenteiro. Francisco de Sousa, Cura da See».
Fonte: A.N./T.T., Registos Paroquiais – Sé de Lisboa, Óbitos, Livro 3, f. 22v.


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