domingo, 29 de março de 2015

CONSERVAÇÃO DO PATRIMÓNIO EM ALMADA

Uma reflexão sobre casos concretos

 Ermida de São Sebastião (década de 1980) (SIPA)


Portugal, enquanto membro da UNESCO, foi um dos signatários da chamada Carta de Paris de 1972, ou seja da «Convenção para a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural», na qual se determina no seu artigo 4.º que:
«Cada um dos Estados parte na presente Convenção deverá reconhecer que a obrigação de assegurar a identificação, protecção, conservação, valorização e transmissão às gerações futuras do património cultural e natural referido nos artigos 1º e 2º (ou seja monumentos, conjuntos, locais de interesse e património natural) e situado no seu território constitui obrigação primordial. Para tal, deverá esforçar-se, quer por esforço próprio, utilizando no máximo os seus recursos disponíveis, quer, se necessário, mediante a assistência e a cooperação internacionais de que possa beneficiar, nomeadamente no plano financeiro, artístico, científico e técnico».

Estas questões da conservação do património cultural, em especial do de natureza religiosa, levantam-se sempre na praça pública quando algumas vozes vêm contestar o apoio (ou mais concretamente o volume do apoio) dado pelo Estado e pelas Autarquias Locais à Igreja Católica para a conservação do seu património, seja este de natureza móvel, como no restauro de pinturas e alfaias e paramentos litúrgicos, ou imóvel, no restauro ou reedificação de actuais e antigos espaços de culto entretanto caídos na ruína ou adaptados a «funções profanas».

De facto, ainda que alguns não concordem com a perspectiva de haver uma relação estreita entre o Poder político e a Igreja em matéria da conservação do património cultural, tal relação é ainda assim a única viável em defesa do interesse público, é que uma coisa é não concordar com a Igreja Católica enquanto instituição e eu, como outros, em algumas coisas nem sempre com esta concordamos (no todo ou em parte), outra é querer omitir uma realidade histórica, artística e cultural que é visível em todo o país e se faz manifestar das mais diversas formas – mais de ¾ de todo património cultural português (material e imaterial) tem ou teve em um determinado período da sua existência uma função religiosa – património cuja recuperação e conservação implicará muitas vezes o seu regresso à sua função inicial, que era o de ser um espaço ou objecto de culto, como foi e é o caso, por exemplo, da problemática Ermida de São Sebastião de Almada, cuja recuperação e devolução ao culto pela Câmara Municipal de Almada em 2009 tem sido alvo de críticas por alguns almadenses.

O exemplo da acção da Câmara Municipal de Almada, a propósito quer das obras de reedificação da Ermida de São Sebastião, quer do restauro de obras de arte existentes na Ermida da Ramalha, é às vezes contestada pelo facto de, em ambos os casos, se tratarem de espaços que funcionam ou passaram a funcionar como lugares de culto, ainda que, no caso de S. Sebastião, se trate de um espaço que só parcialmente foi entregue à paróquia do Pragal (Cristo Rei), sendo a sua utilização regulada por «contrato em regime de comodato, com a validade de 30 anos que estabelece que a Fábrica da Igreja Paroquial do Cristo-Rei utilize a igreja para celebrações religiosas e a Câmara Municipal de Almada possa usar a ermida para promover espectáculos musicais e exposições», tal foi o caso do Festival «Sons de Almada Velha», o qual se realiza anualmente desde 2011 e que inclui sempre um ou dois eventos na Ermida de São Sebastião.

Por outro lado, ainda que nem todos partilhem desta visão, é um facto que aqueles dois espaços, no campo do património histórico e cultural de Almada, constituem-se em dois edificados únicos, nomeadamente pela sua antiguidade:
- a Ermida de São Sebastião, edifício classificado como Imóvel de Valor Concelhio / Interesse Municipal desde 1986, reedificada entre 1732 e 1739 pela Câmara Municipal de Almada, mas cuja construção original foi feita por ordem de D. João III em 1535 (aliás nota histórica que só foi possível de ser identificada por uma inscrição encontrada nos trabalhos arqueológicos realizados aquando da sua recuperação), constitui um dos poucos edifícios de matriz barroca joanina do núcleo histórico de Almada (núcleo profundamente abalado pelo terramoto de 1755);
- a Ermida da Ramalha é uma das mais antigas capelas do distrito de Setúbal, tendo sido edificada em 1456 e reedificada no século XVII;

Inscrição na tijoleira primitiva da Ermida de S. Sebastião
(Museu da Cidade)

Mas são também relevantes pelo valor artístico de alguns dos elementos que os compõem, como a cantaria barroca de São Sebastião e as telas barrocas da Ramalha; e ainda pela sua importância na cultura imaterial popular por estarem ligados à tradicional Romaria do São João da Ramalha, com origens certas no século XVIII, mas cuja tradição a faz remontar aos princípios da nacionalidade!

Maquete do restauro da Ermida S. Sebastião (2005-2009)
(Arquitecta Maria José Lopes)

Se quanto aos aspectos técnicos e de planeamento não posso falar, por falta de conhecimentos que me permitam discutir em pormenor os critérios e as prioridades municipais em matéria de política de recuperação e conservação do património, é ainda assim certo que existem no concelho de Almada outros espaços que mereceriam igual e urgente intervenção, como sãos os casos da:
- Fábrica do Caramujo, edifício industrial cuja construção, no fim do século XIX, foi pioneira no uso do betão armado em Portugal; do
Fábrica do Caramujo

- Lazareto Novo do Porto Brandão, considerado à época da sua construção (década de 1860), o mais moderno estabelecimento sanitário do género em toda a Europa; da
Lazareto Novo do Porto Brandão

- Ermida de São Tomás de Aquino, exemplar raro de arquitectura manuelina no concelho; ou ainda da

Ermida de São Tomás de Aquino (1980) (SIPA)

- Torre Velha de São Sebastião da Caparica, que além de Monumento Nacional e lugar de importância histórica singular (por exemplo no período da Restauração, tendo sido lugar da prisão de D. Francisco Manuel de Mello, figura maior das letras portuguesas do século XVII), é um dos raros exemplares ainda existentes em Portugal de uma fortificação militar do século XV e XVI construída segundo o modelo italiano, constituindo por isso um dos primeiros edifícios de cunho renascentista a ser edificado em Portugal!
 
Torre Velha de São Sebastião da Caparica (2015)

Estou consciente que muitas destas intervenções estariam e estão oneradas por questões económicas, políticas e administrativas que, ou ainda não foram possíveis de desbloquear, ou que obrigam a cuidado e pensado planeamento, pelo que as opiniões que usam estes exemplos para criticar a intervenção dos decisores municipais, ainda que admissíveis no campo da discussão das prioridades da política cultural local, são contudo menos razoáveis quando omitem a diferença na escala de intervenção ou subvalorizam a importância que o património religioso acima referido igualmente tem na história e cultura municipal.

Devemos ainda assim perguntar e eu pergunto: O que é mais correcto fazer na recuperação de um espaço que, com quase cinco séculos de existência, à excepção de um período de pouco mais de 100 anos, quase sempre funcionou como lugar de culto?
- Que se recupere o espaço, mas adaptando-o a uma outra função digamos mais «profana»; ou
- Que uma vez recuperado seja devolvido a essa função primeva;
Eu diria que «ambas as duas» (sic) são correctas, ou melhor que ambas as possibilidades devem sempre ser consideradas, adoptando a solução que melhor defenda o interesse geral da população e esse é, até melhor opinião, que uma vez recuperado o património deve ser valorizado, através da sua utilização e apropriação pelos munícipes, e deve ser conservado para não se perder o investimento feito na sua recuperação!

Aliás, estas duas vertentes, a da valorização e a da conservação, andam sempre ligadas, uma vez que se este património não for «apropriado pelas populações», acabará inevitavelmente por voltar a degradar-se, até pela simples razão de que a opinião pública não valoriza aquilo que desconhece ou que não é tido como «o seu património»!

Uma parte desta apropriação, sobretudo quando existem práticas religiosas já estabelecidas, sejam elas de carácter regular, como a missa dominical, ou extraordinário, como a realização de procissões e romarias, terá forçosamente ser através da utilização cultual destes espaços.


 

São Sebastião e Sagrada Família (telas do séc. XVII ?)
(Ermida da Ramalha)

É razoável que sendo Portugal um estado laico, ou seja que não tem uma religião oficial (situação que ainda hoje acontece por exemplo na Arábia Saudita ou no Bhutão), não discrimine os seus cidadãos e as suas instituições em função da sua prática (ou não) religiosa, e tal de facto acontece em Almada e em outras localidades do país, por exemplo através do apoio ao associativismo. Contudo um estado laico não pode, nem deve, ser alheio à realidade concreta da sua sociedade e cultura, sendo a sua obrigação proteger e salvaguardar de uma forma não discriminatória as manifestações culturais materiais e imateriais da sua população, tenham estas um cunho mais ou menos popular, mais ou menos erudito, mais profano ou mais religioso.

Em suma, querer reduzir a política cultural e de conservação do património a uma questão da separação da Igreja do Estado, não nos pode levar a ser insensíveis a uma verdade que é histórica e que deve ser compreendida e preservada, sob pena de os exemplos de destruição e ruína patrimonial, a que por vezes vamos assistindo, acabem por se tornar a norma, em vez da excepção!

É a minha convicta opinião, respeitando as demais, que aos homens que amam a cultura não se pede que sejam beatos, mas que sejam sensatos!


Por fim, e com a devida vénia ao historiador de arte Prof. Dr. Vítor Serrão, deixo aqui um excerto da opinião de alguém que, com os seus mais de 40 anos de reflexão sobre estas matérias, nos faz um retrato histórico, cultural e social objectivo sobre a questão do nosso território em ruínas, quando afirma que:
«O nosso país constitui, de há muito, um exemplo tristemente esclarecedor dessa sanha descontrolada de anti-património. As fases subterrâneas da História portuguesa pululam de ondas de descaracterização, de desleixo e de abandono de parte da sua memória arquitectónica, outrora significativa, que pura e simplesmente é deixada em estado de silenciosa agonia, em nome de uma ideia abastardada de progresso. Não só as guerras e as catástrofes naturais, os megassismos e os incêndios, as invasões estrangeiras e as fases de conturbação intestina, os maus restauros e as ondas de iconoclastia, contribuíram para essa perda do património comum, mas também a inconsciência das tutelas, a ambição de especuladores sem escrúpulos, a desmemória de muitas comunidades e a falta de instrumentos legais de preservação e de salvaguarda».

(Vítor Serrão, "Portugal em ruínas. Uma história cripto-artística do património construído", in Gastão de Brito e Silva, Portugal em ruínas, 2014, p. 12-13)

Compete a nós, os que defendem a cultura, não deixar que a «desmemória» permita continuar a «desconstrução do património» prolongando o estado de «anti-património», em que infelizmente algum dos espaços almadenses estiveram, e outros continuam a estar, há demasiado tempo!


RUI MANUEL MESQUITA MENDES
Caparica, 29 de Março de 2015


Outras leituras:
Vítor Serrão, "Portugal em ruínas. Uma história cripto-artística do património construído" [introdução ao livro Portugal em ruínas], 2014.
Gastão de Brito e Silva, Portugal em ruínas, 2014.
Rui Neves Caetano, "Desconstruindo o Património", in Actas do 2.º Encontro do Património de Almada e Seixal, 2014.




Algumas fontes:



Ângela Luzia [Coord.], Luís de Barros, Fernando Henriques e Telmo António [Textos], Exposição «Chão de Memórias», Museu da Cidade, Almada, Novembro, 2012

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Notícia Inédita sobre Duarte Lobo

Duarte LOBO (c. 1565 + 1646), natural, ao que tudo indica, de Lisboa *, foi o «mais famoso compositor português do seu tempo», um dos expoentes da "época dourada" da polifonia portuguesa, mestre de capela e quartanário * da Sé de Lisboa, nomeado em substituição de Baltazar Garcia, falecido em 23 de Janeiro de 1591, aí ensinou música no Colégio do Claustro, onde se manteve pelo menos até 1639. Mais tarde dirigiu na capital a capela do Seminário de Santa Catarina (equivocadamente apelidado por alguns autores de São Bartolomeu), que o Cardeal D. Henrique fundara em 1566 com o patrocínio de D. Catarina.

Nos cerca de quase 50 anos em que esteve à frente do Coro da Sé de Lisboa, além das obras publicadas, que assinava como Eduardus Lúpus, referidas nas suas biografias, e da data da sua morte, registada nos Livros de Óbitos da Freguesia da Sé de Lisboa em 24 de Setembro de 1646 (ver abaixo), não são muitos os elementos biográficos certos de Duarte Lobo, nomeadamente dados sobre a sua família e bens.
José Augusto Alegria, na obra Polifonistas Portugueses (1984), cita os apontamentos do Pe. Luís Montez Matoso *, onde este registou que o Padre Duarte Lobo fez em 1639, depois do mês de Junho, era já então Reitor do Seminário da Sé, uma dotação de 600$000 reis a favor de uma sua sobrinha, Catarina de Gouveia, filha de Heitor de Gouveia, Cavaleiro Fidalgo, e de Jerónima de Pina, que professara no Convento de Chelas, onde vivia uma sua tia (provável irmã de Duarte Lobo) com 38 anos de profissão religiosa (ALEGRIA, 1984, p. 19).

Inédita parece ser a referência à Quinta de Duarte Lobo em Sintra, «junto ao Linhó», referida numa Provisão e Escritura lançadas em 1644 nos Livros de Registo da Chancelaria ou Câmara Eclesiástica de Lisboa, hoje existentes no Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa, referem estas que o então Reitor do Colégio do Seminário de Lisboa e Quartanário da Santa Sé de Lisboa era proprietário de uma quinta na freguesia São Pedro de Penaferrim, junto a Sintra, onde mandou edificar nesse ano uma ermida dedicada a São Sebastião. Tratava-se muito provavelmente da conhecida Quinta da Fonte, no Linhó, onde se regista uma ermida da mesma invocação, reedificada em 1759 pelo seu então proprietário Eusébio da Cunha das Vilas Boas, e que hoje, já bastante modificada, quinta e capela, pertencem às irmãs religiosas Doroteias.
A provisão, dada em 10 de Outubro de 1644, concedia licença para que a ermida fosse benzida para nela se dizer missa, e a escritura era um público instrumento de dote e obrigação dos rendimentos da vinha da quinta a 3$000 reis em cada ano para a fábrica da mesma ermida, o qual fora feito em 24 de Setembro de 1644 nas notas de Marcos de Sousa, tabelião de notas na vila de Sintra (Patriarcado de Lisboa – Registo Geral da Câmara Eclesiástica, Livro VIII, fls. 149-149v).

QUINTA DA FONTE – esta antiga casa de vilegiatura, hoje casa religiosa, terá pertencido ao famoso compositor polifónico Duarte Lobo (Foto Vítor Oliveira, reproduzida com autorização do autor, pub. orig: https://www.flickr.com/photos/vitor107/13765689964/in/photostream/)

Sabemos, por alguns episódios relatados pelos seus biógrafos, que Duarte Lobo era «muito favorecido do Duque (de Bragança) que por extremo era afeiçoado a Música» e além disso, pelo modo como, enquanto Mestre do Coro da Sé, recebeu solenemente em 21 de Maio de 1639, o Arcebispo de D. Rodrigo da Cunha, regressado de Madrid após ter rejeitado o barrete cardinalício de D. Filipe IV, começando «a entoar o salmo In exitu Israel de Aegipto, e ao perpassar por alguns castelhanos, com os olhos fitos neles, reduplicava em voz alta de populo barbaro»; será fácil entender que as simpatias de Lobo pendiam pouco para o lado de Castela. Talvez isso explique a sua devoção a São Sebastião, que como se sabe, era santo a que os últimos soberanos da dinastia de Avis dedicavam particular culto.

De qualquer modo fica aqui o registo desta nota biográfica inédita, que nos dá mais uma faceta de uma das maiores figuras da história da música portuguesa, que junto com outros compositores como Manuel Mendes, Frei Manuel Cardoso, Manuel Rebelo e Diogo Dias Melgás, se destacou nas chamada da "época dourada" da polifonia portuguesa.


Rui Manuel Mesquita Mendes
CAPARICA, 16 de Setembro de 2014

NOTAS
* Lisboa – as notícias de alguns autores, que lhe atribuem naturalidade da vila de Alcáçovas, onde teria nascido em 19 de Setembro de 1575, parecem destituídas de fundamento, referindo-se seguramente a um outro clérigo homónimo, conforme nos refere José Augusto Alegria, até porque em algumas fontes da época Lobo indica ser cidadão de Lisboa, já quanto à data do seu nascimento, pela época em que professou, estima-se que teria nascido entre 1564 e 1565.
* Quartanário – clérigo beneficiário da quarta parte de uma prebenda canonical.
* Luís Montez Matoso – clérigo nascido em Santarém, viveu desde 1701 a 1750, formado no Colégio dos Jesuítas, passou a Coimbra, onde não concluiu a formatura, professou nos Terceiros franciscanos, transitando depois para a Ordem de Malta. Infatigável investigador de arquivos e bibliotecas, escreveu um grande número de obras de história religiosa e profana, de que se imprimiu em vida Historia do Senhor roubado de Odivelas (1745, 1751), Notícia da fonte das Almas … de Santarém (1748), e Relação do horroroso estrago e ruina succedida no Mosteiro das Religiosas de S. Domingos, das Donas de Santarém (1742). Outros manuscritos, depois dispersos pela Biblioteca Pública de Évora e Biblioteca Nacional, ou permanecem inéditos, como o Index das Notas dos Vários Tabeliães de Santarém, ou só foram impressos nos últimos cem anos, como o Index das notas de varios tabelliães de Lisboa, entre os annos de 1580 e 1747 (1930-1949), Anno Noticioso e histórico [1740-45] (1934), Algumas notícias referentes à Universidade e ao Corpo Académico [1740] (1965), Memórias para a história da vila de Torres Novas [1745-46] (2008), e Santarém Ilustrada [1738] (2011). Em Santarém, onde foi escrivão da Câmara e notário apostólico, bem como o primeiro presidente da academia ‘Aventureiros Scalabitanos’, fundada em agosto de 1745, apresentando um “método fácil e instrutivo para os que se quiserem aplicar ao estudo da História”, foi ainda "correspondente" da Gazeta de Lisboa, para onde enviou muitas notícias inéditas e curiosas.

BIBLIOGRAFIA
José Augusto ALEGRIA – Polifonistas Portugueses (1984).

PEÇA MUSICAL

RETRATO DE DUARTE LOBO

ÓBITO DE DUARTE LOBO
«Aos vinte e quatro de setembro de seiscentos e quarenta e seis faleceo Duarte Lobo quartanario desta See, esta sepultado em Sancto Eloi, o quartanario Henrique de Souza Serram he testamenteiro. Francisco de Sousa, Cura da See».
Fonte: A.N./T.T., Registos Paroquiais – Sé de Lisboa, Óbitos, Livro 3, f. 22v.


sexta-feira, 24 de maio de 2013

atras da ponte: Trás da Ponte - Páteo do Genovês

atras da ponte: Trás da Ponte - Páteo do Genovês: Entrada no Páteo do Genovês pela Rua dos Valentes Dentro do Páteo, com a Rua dos Valentes ao fundo Páteo do Genovês em pleno séc. ...

Este Pátio do Genovês, que mostra ter uma casa originária do século XVIII-XIX estará quase certamente associada a um Angelo Lapianes, comerciante genovês que viveu e casou no Seixal e que é antepassado da família portuguesa dos "Piano" que foram donos dos Solar dos Zagallos, da Sobreda, no século XX.


Em 23 de Fevereiro de 1789, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição do Seixal, casou «Angelo de Lapianes, solteiro, filho de João Baptista, já defunto e Bárbara Maria, baptisado na freguesia de S. Martinho de Murta, Bispado e República de Génova, morador na freguesia de Arrentela, onde se desobrigou, e as antecedentes na freguesia do Loreto, de Lisboa; com Luísa Maria Caetana, solteira, filha de Manuel de Torres Barbosa, e de Teresa Bernarda, natural e bap. nesta freguesia onde se tem desobrigado».


Rui Mendes

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Revista Anais de Almada n.º 15-16 (2012-2013)



Revista Anais de Almada n.º 15-16 (2012-2013)




Foi lançado no passado mês de Abril, no Arquivo Histórico Municipal de Almada (Casa Pargana), mais um número da revista cultural “Anais de Almada”, desta vez o número duplo 15-16 (2012-2013).
Neste novo número podemos, ao longo das suas mais de 300 páginas, ler oito importantes artigos da responsabilidade de arqueólogos, sociólogos, investigadores e ensaístas, em temáticas que abrangem a história do território de Almada desde o Período do Paleolítico, até ao século XX, em temáticas tão diferentes como a ocupação islâmica, a majólica italiana, as visitações da Ordem de Santiago no período medieval, Gil Vicente, religiosidade popular nos séculos XVIII e XIX, a Época de D. Miguel e finalmente o fenómeno do desenvolvimento urbanístico e turístico da Costa da Caparica.
Esta revista, que completa este ano o seu décimo-quinto aniversário, tem vindo ao longo da sua existência a possibilitar a divulgação de trabalhos de investigação relevantes quer de académicos, quer de investigadores locais, que decidiram debruçar-se sobre as terras e gente almadense.
Caparica, 23 de Maio de 2013


quinta-feira, 7 de março de 2013

São Pedro da Cadeira (IV): Património religioso




Capela de N. Senhora da Esperança ou das Candeias ? (Coutada)

 
(Capela de N.ª Sr.ª da Esperança – Col. site www.saopedrodacadeira.pt)



No lugar da Coutada, na quinta dos Priores, existe uma Ermida dedicada a N. Senhora da Esperança que está ligada a uma tradição segundo a qual o seu fundador a ergueu em agradecimento à Virgem por conseguir finalmente ter um filho, depois de os dois primeiros lhe terem morrido.
Não se sabe quem foi o seu fundador mas apenas que em 1758 pertencia ao Desembargador José Cardoso Castelo e que a mesmo se tinha arruinado com o terramoto junto com a Quinta.
Foi reconstruída em 1800 por José Franco de Carvalho e aberta ao culto por Licença dada em 10 de Maio de 1800 (1).
No século XX foi de novo reconstruída junto com a quinta.


Igreja de N. Senhora da Saúde (Coutada)

 (Igreja da Coutada – Col. site www.saopedrodacadeira.pt)


Igreja edificada pelos moradores deste lugar segundo projecto do Arqt.º António Flores Ribeiro (Secretariado das Novas Igrejas do Patriarcado). Depois da 1.ª pedra ter sido lançada em 1 de Janeiro de 1981, foi solenemente inaugurada e aberta ao culto em 23 de Setembro de 1984 (2).



Capela de St.º António (Quinta das Figueiras)


(Capela da Quinta das Figueiras, Col. João Luís Alves Francisco) (*)

Ermida edificada em 1710 por António de Miranda dos Santos junto das casas da sua quinta das Figueiras, cuja Licença de edificação foi registada na Câmara Eclesiástica em 15 de Maio de 1710 (3).
Em 1758 pertencia a Capela e Quinta a João da Costa e Morais.
Em 1911 estava a Capela secularizada e as imagens e objetos de culto encontravam-se à guarda da Igreja Paroquial.



Igreja de S. João Baptista (Assenta)

 
(Igreja de Assenta – Col. site www.saopedrodacadeira.pt)

A Capela original foi edificada em 1751 pelo Pe. João Álvares e demais moradores no Casal das Figueiras e Assenta. Tinha rendimentos próprios consignados numa Escritura de dote feita em Torres Vedras a 12 de Agosto de 1749 pelo tabelião José Pinto Valadares. Teve Licença para ser benzida e nela se dizer missa em 29 de Junho de 1751 (4).


Era pública e foi arrolada em 1911.
No século XX foi feita uma nova igreja edificada pelos moradores deste lugar segundo projecto do GAT CM Torres Vedras.
Foi solenemente inaugurada e aberta ao culto em 19 de Setembro de 1993 (5).



Capela de N. Senhora da Conceição (Azenha Velha)


     Capela edificada por Estêvão Zagallo de Andrada e sua mulher D. Camila da Silva Negreiros, nas casas da sua quinta de S. Pedro da Cadeira também conhecida por Quinta da Atalaia (Casal do Ulmeiro ?. Azenha Velha). Tinha rendimentos próprios de 4$000 rs anuais consignados numa Escritura de dote feita em Lisboa a 6 de Julho de 1696, pelo tabelião Domingos da Silva. Teve Licença para nela se dizer missa em 30 de Julho de 1699 (6).


Igreja de N. Senhora da Conceição (Camila)

 

(Igreja da Camila – Col. site www.saopedrodacadeira.pt)


Já neste século foi edificada no Alto da Camila uma Igreja também dedicada a N. Senhora da Conceição para servir de centro culto para os moradores de Gentias, Azenha Velha, Carvalhais, Feteira e Cambelas.
O projecto foi da autoria da Desenhadora Helena Franco e a obra foi conduzida pelo sr. Roque da Silva, sendo solenemente inaugurada e aberta ao culto em 11 de Setembro de 1997 pelo Bispo Auxiliar D. António Vitalino Canas (7). (**)


Capela de S. Nuno (Soltaria)

(Capela de S. Nuno em 2009 – Col. Rui Mendes)


Capela edificada pelos moradores de Casais Miguéis e Soltaria, foi-lhe posteriormente acrescentada uma torre e alpendre também da autoria da Desenhadora Helena Franco, obra que, segundo inscrição local, foi inaugurada em 8 de Julho de 2007 (8). (**)



Capela do Cemitério



FIM
RUI M. MENDES
Caparica, 13 de Setembro de 2012

(*) Foto inserida em 12-12-2013
(**) REVISÃO: 17-07-2014

Notas:
(1) AHPL, Ms. 298, fól. 265; TT-CEL, Mç. 1805, s/n – Inéditos (revisto em 17/9/2012)
(2) Vida Católica, 2ªS, N.º 34, pág. 142
(3) AHPL, Ms. 409, fól. 9 – Inédito
(4) AHPL, Ms. 355, fól. 154; TT-CEL, Mç. 1809, N.º 148 – Inéditos
(5) Vida Católica, 2ªS, N.º 34, pág. 155
(6) AHPL, Ms. 197, fól. 249 – Inédito
(7) Vida Católica, 2ªS, N.º 36, pág. 535. Revisto em 17-07-2014 de acordo com informação da própria autora a Desenhadora Helena Franco. (**)
(8) Revisto em 17-07-2014 de acordo com informação da própria autora a Desenhadora Helena Franco. (**)

TT : Torre do Tombo
AHPL : Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa
CEL : Câmara Eclesiástica de Lisboa

São Pedro da Cadeira (I): Geografia, Toponímia e Heráldica




 São Pedro da Cadeira é uma freguesia do Concelho de Torres Vedras com cerca de 23 km² e 4400 habitantes, confronta a norte com a freguesia da Silveira, a nascente com a de São Mamede da Ventosa, a sul com a freguesia da Encarnação (Mafra), e a poente com o Oceano Atlântico. Tendo a uma das áreas menos urbanizadas do concelho de Torres Vedras (com mais de 50% do território da freguesia incluído em reserva agrícola ou ecológica), esta localidade goza ainda de uma relativa tranquilidade complementada pela espetacular paisagem da costa oceânica que vai desde a Foz do Lizandro até à Praia do Barril. Fazem parte desta freguesia além da povoação-sede de São Pedro da Cadeira (550 hab.), as povoações de Escaravilheira (654), Coutada (651), Assenta (645), Cambelas (437) e ainda os pequenos lugares de Azenha Velha (299), Soltaria (239), Barrocas (183), Casal Pinheiro (133), Bececarias (130), Gentias e Foz (105), Casal da Pedra Pequena (62), Carvalhais (62) e Figueiras (56). Também nesta freguesia foram identificados alguns lugares de edificação dispersa tais como: Casal Ramalhal, Casal Belmonte, Casal da Amoreira, Casal das Covas de Baixo, Casal do Barro e Porto Rio.

A toponímia local apresenta diversas origens, por um lado os termos mais antigos como Randide, Soltaria, Cambelas, Bececarias e Escaravilheira que denotam origens francas típicas também em outras zonas do concelho de Torres vedras e concelhos limítrofes, o que é lógico pois após a reconquista muitas destas terras foram dadas a colonos francos. Por outro temos topónimos que denotam formas de povoamento e propriedade como Coutada ou Assenta, termos já aqui referidos no séc. XIII ou os Casais expressão que já aparece aqui no séc. XIV.
Existem também topónimos comuns relacionados com construções e condicionantes do terreno e vegetação como Azenha Velha, Barrocas, Carvalhais, Feteira e Figueiras, muito provavelmente de origem mais recente (séc. XVI-XVII), bem como um, o dos Casais e Alto da Camila, nome que deve ter origem em D. Camila da Silva Negreiros, mulher de Estêvão de Zagallo Andrada, que foram proprietários na primeira metade do séc. XVIII de uma quinta próxima a este local.
Já o nome da freguesia e povoação-sede é um hagiotopónimo claramente influenciado pela invocação da Capela, depois igreja paroquial, já existente no início do séc. XVI, mas certamente anterior, o qual acabou por substituir o de Rendide.



Áreas Urbanas da Freguesia de São Pedro da Cadeira (Fonte: PDM Torres Vedras 2006)


A freguesia de São Pedro da Cadeira possui brasão, com a seguinte constituição:
Escudo de prata, cadeira de vermelho, realçada de ouro, carregada no espaldar de uma cruz de prata de três travessas; em chefe, dois cachos de uvas de púrpura, folhados de verde; campanha ondada de verde, prata, azul, prata e verde. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: «S. PEDRO DA CADEIRA».


RUI M. MENDES
Caparica, 13 de Setembro de 2012

São Pedro da Cadeira (III): Edifícios mais notáveis




São sem dúvida dois dos mais antigos e notáveis edifícios da freguesia de São Pedro da Cadeira, a Igreja Paroquial, dedicada à Cadeira de S. Pedro de Antioquia, e a Capela de Nossa Senhora da Cátedra, ambas documentadas no século XVI mas de origem mais antiga.


Igreja Paroquial de S. Pedro da Cadeira

(Igreja Paroquial de S. Pedro da Cadeira – Col. site http://fozdoriosizandro.no.sapo.pt)

A Igreja de S. Pedro da Cadeira, antiga Capela de Randide (1506) tem origem numa Albergaria cujo Compromisso parece datar do século XV, senão anterior. Foi edificada pelos anos de 1530-35 e de novo reedificada no reinado de D. João IV e no século XVIII.
Descrita em 1963 por Carlos de Azevedo e Adriano de Gusmão (1) como uma «Igreja franqueada por porta seiscentista, sobre a qual uma pequena pedra tem esculpida a mitra papal e as chaves, atributos do orago. Em frente da fachada, um cruzeiro simples, datado de 1689.
O interior, de uma só nave, é decorado por um bom silhar de azulejos do século XVII, de tipo de tapete. Tem coro alto sustentado por duas colunas toscanas com pias de água benta integradas nos fustes. A pequena capela baptismal é de notar, com a sua cúpula semiesférica e azulejos também do século XVII, de dois padrões porventura ainda mais bonitos que os já citados. A própria fonte baptismal é uma boa taça oitavada, de pedra, pouco trabalhada mas elegante, suportada por um colunelo facetado. Quanto ao púlpito, de laje de pedra rosada, é do século XVII.
Os altares colaterais não têm interesse, mas conservam algumas boas imagens. E, finalmente a capela-mor é a peça mais importante da igreja. As paredes são forradas com um largo silhar de azulejos do século XVII e, por cima destes, largas molduras de talha dourada enquadram quatro telas que sugerem o estilo de Bento Coelho da Silveira. O retábulo é um bom trabalho de talha dourada do começo do século XVIII, de quatro colunas tão ricamente trabalhadas que quase escondem a sua forma torsa. O altar, porém, é moderno e possivelmente substitui um outro mais antigo e de maiores dimensões, a avaliar pelo grande frontal que se encontra na arrecadação do lado da Epístola. Na sacristia, uma fraca pintura em madeira, do século XVII, representando O Calvário».

Este templo que apresenta características do século XVII por ter sido reedificado no reinado de D. João IV, tem contudo origem num templo anterior já referido em 1506, mas certamente muito mais antigo pois já em 1507 se encontrava em ruínas, razão pela qual foi feito de novo entre 1530 e 1535, sendo a capela-mór por conta dos padres de S. Miguel de Torres Vedras, e o corpo da igreja do povo (2).
Por causa de ruínas sofridas no século XVII, de origem não especificada, os fregueses alcançaram licença de D. João IV para a sua reedificação, conforme regista o Cura de S. Pedro da Cadeira nas suas Memórias Paroquiais de 1758, no entanto as obras devem-se ter prolongado por quase toda a segunda metade desse século como parece indicar a data de 1689 registada no cruzeiro fronteiro. É provável que o principal das obras já estivesse contudo concluído pelos anos de 1669, pois em 14 de Janeiro desse ano foi concedida licença pelo Arcebispo de Lisboa para haver Sacrário na Igreja de S. Pedro da Cadeira (3).
Esta igreja sofreu ainda danos significativos com o terramoto de 1755, pois o Cura da freguesia diz em 1758 que «era esta Igreja de uma nave a qual com o Terramoto caiu no chão, e assim está pelos Fregueses serem muito pobres».
As obras de reconstrução duraram até 1761 com grande empenho dos paroquianos que para elas contribuem, sendo que nesse ano de 1761 foi ano da entrada de Nossa Senhora da Nazaré (4).
No Fundo do Ministério das Obras Públicas regista-se ainda uma campanha de obras e reparos feitos em 1893-95 (5).

Na altura do terramoto tinha ainda a Igreja, além do Altar-mor, mais quatro altares laterais dedicados ao Santíssimo Nome de Jesus, a N. Senhora do Rosário, a S. Sebastião, e a S. Miguel.
No século XIX tinha de fundo 150 palmos e de largo 37 além 3 altares.

Tem no degrau da pia baptismal 2 lápides romanas sendo estes elementos sem dúvida um dos que mais destaque merece pela sua antiguidade.

As quatro telas com representações de parábolas que de acordo com Carlos de Azevedo sugerem o estilo de Bento Coelho da Silveira (1620+1706), também Luís de Moura Sobral (6) as regista como contemporâneas deste pintor, um dos mais profícuos do seu tempo, em Portugal, colocando-as contudo no âmbito daquelas que apesar da qualidade plástica revelada permanecem anónimas na sua autoria, sendo muito provavelmente uma encomenda feita a uma oficina de Lisboa.


Capela de N. Senhora da Cátela ou Cátedra (S. Pedro da Cadeira)


(Capela de N.ª Sr.ª de Cátela – Col. site www.saopedrodacadeira.pt)


(Desenho de Nuno Mendonça, 1963, in AZEVEDO)

Representada por Nuno Mendonça e descrita por Carlos de Azevedo e Adriano de Gusmão (7) como estando «situada já fora mas ainda cerca da povoação de S. Pedro da Cadeira na estrada para Torres Vedras, a pequena Capela da Senhora da Cátela, ou da Cátula (corrupção de Cátedra), esconde um surpreendente interior atrás de uma modesta fachada, onde apenas se recorta um pequeno e antigo óculo estrelado. Com efeito, o pequeno templo conserva um bom silhar de azulejos de ponta de diamante, do século XVII. e a capela-mor, de planta quadrada e abóbada de aresta, é mesmo notável pelo seu belíssimo forro destes azulejos que também decoram a fresta, e pelo frontal de altar em azulejos hispano-árabes. O retábulo de talha é pequeno e modesto, do século XVIII. A valorizar porém o conjunto, uma imagem de pedra policromada, do século XVI, representando a Virgem do Leite. Na pilastra do arco triunfal, chanfrado, lê-se a seguinte inscrição:
FEITA NA ERA DE 1555 ANOS
SENDO JUIZ ÁLVARO VAZ DO URMEIRO
No lintel da pequena porta que se encontra na capela-mor, do lado da Epístola, a data de l669».





 

(Alçado e Planta da Capela, Col. Arquivo Histórico de Torres Vedras)


Pouco se sabe acerca da sua fundação, sendo no entanto bastante antiga pois editores da 2ª edição de Madeira Torres referem que tinha várias propriedades com tombo feito em 1507, encontrando-se o mesmo no tombo da provedoria, juntamente com o da confraria de S. Pedro da Cadeira (fl. 342 vº). Neste tombo encontra-se esta ermida com o nome de "N. Sra. da Cátula" (8).
Segundo as Memórias Paroquiais constava-se que a Imagem era «do tempo dos Godos, a qual diz estar enterrada naquele sítio e que andando lavrando hum lavrador açoitando os bois estava a senhora enterrada, e lhe fizeram a dita Ermida», o que terá acontecido no século XV ou ainda antes.
Certa é a data da sua reedificação, feita em 1555 por ordem do Juiz da Confraria Álvaro Vaz de Urmeiro, conforme inscrição local, para estas obras deve ter contribuído a mercê concedida em 1536 por D: João III aos juízes da «Irmandade de N.ª Sr.ª da Cátula em Torres Vedras» para poderem fazer Bodo, neste tempo este tipo de licenças era dado com a condição de não se fazerem despesas desnecessárias e de se reservar a quarta parte das esmolas colhidas para os ornamentos do altar e fábrica da igreja ou capela e caso esta não necessitasse a quarta parte era para se celebrarem missas pelas intenções dos ofertantes (9).

Uma nova campanha de obras no século XVII conforme parece documentar a inscrição da data de 1669.
Esta ermida, também referida no Santuário Mariano, livro 1º tit. 25 (10) sofreu grande ruína com o terramoto conforme se relata em 1758 nas mesma Memórias Paroquiais, onde o Cura diz «que com o Terramoto se arruinou» foi contudo reedificada por iniciativa de José Francisco Miranda em 1781 recebendo Licença para nela novamente se dizer missa em 25 de Janeiro de 1782 (11). Nas obras setecentistas foi acrescentado um portal de claro gosto pombalino assim como o retábulo de talha.

(Portal da Capela de N. Senhora da Cátedra – Col. patrimoniodetorresvedras.blogspot.pt)

A IMAGEM
A imagem da Virgem do Leite tem de estatura 4 palmos. Obra em pedra onde a Senhora tem sobre o braço esquerdo o menino; estão ambas as figuras coroadas de prata, e ricamente encarnadas e pintadas ao antigo. O Menino Jesus tem na mão uma cruz (in. "Santuário Mariano")


 
(N.ª Sr.ª do Leite e Altar de N.ª Sr.ª da Cátela  –  Col. Arquivo Histórico de Torres Vedras)


RUI M. MENDES
Caparica, 13 de Setembro de 2012

Notas:
(1) Carlos de Azevedo e Adriano de Gusmão – Monumentos e Edifícios Notáveis do Distrito de Lisboa, Vol. IV, Lisboa : Junta Distrital de Lisboa, 1963, pp. 35-37.
(2) http://arqtvedras.home.sapo.pt/LetraS/S0109.htm
(3) AHPL, Ms. 291, fól. 284 – Inédito
(4) http://ciriodapratagrande.com/saopedrocadeira/?file=kop1.php
(5) TT, Ministério das Obras Públicas mç. 472
(6) Luís de Moura Sobral – Bento Coelho e a Cultura do Seu Tempo, 1998, pág. 58.
(7) Carlos de Azevedo e Adriano de Gusmão – Idem
(8) http://arqtvedras.home.sapo.pt/LetraN/N0007.htm
(9) TT-CHR, D. João III, Liv. 22, fól. 117 – Portugal, Torre do Tombo, mf. 5448
(10) Frei Agostinho de Santa Maria, Santuário Mariano, Tomo I, Tít. XXV, pp. 86-87, 1707:
TITULO XXV
Da Imagem de nossa Senhora da Cathedra no termo de Torres Vedras
«HE Maria Santíssima a May da eterna sabedoria & ella mesma he a sabedoria assim o diz Salamão: Ego Sapientia habito in consilio & eruditis intersum cogitationibus. He Mestra da Igreja & assim está em cadeyra hoje dictando, & instruindo com a sua intercessão a todos os filhos della. Assim parece o disse Hesychio chamando lhe Cadeira de Cherubim, que como a estes espíritos se attribue a sabedoria para mostrar o Padre a alta sabedoria da Senhora lhe chama Cathedra Cherubica, Cadeira verdadeiramente de Cherubins porque della não só ensina mas sem cessar á imitação dos Cherubins está louvando ao Senhor por nós Tibi Cberubim Seraphim in cessabili Voce etc rendendo-lhe incessantes louvores pelas misericórdias que por intercessão sua nos reparte illustrando nossos entendimentos & enchendo-nos da sabedoria de sua divina graça para merecermos as da sua gloria.
No termo da Villa de Torres Vedras, duas legoas distante da mesma Villa para a parte do Norte fica a de São Pedro da Cadeira, Em pouca distancia desta Parochia, ou lugar também para a parte do Norte fica hua Ermida dedicada a nossa Senhora com a invocação & titulo da Cadeira, ou Cathedra. A ethimologia deste nome dizem alguns ser derivado de huma grande povoação, que alli havia antigamente a que chamavão a Cathedra, pela Igreja que também alli havia dedicada ao Príncipe dos Apostólos São Pedro & ainda hoje conserva a Parochia & o lugar este título chamando-se São Pedro da Cadeira ou da Cathedra, que he o mesmo. No altar mor desta Ermida he venerada hua devota Imagem de nossa Senhora : a qual ou fosse por haver estado primeyro em a mesma Igreja de S Pedro ou por estar no mesmo lugar & freguesia, he buscada e venerada com este título. Outros a invocão com o título de nossa Senhora do Ó, mas o mais commum he o de nossa Senhora da Cathedra. Donde esta Santa Imagem veyo nem em que tempo se lhe edificou a sua Ermida se ignora: o que se sabe de certo he que he muyto antiga.
Tem esta Santa Imagem de estatura quatro palmos de escultura, obra em pedra, tem sobre o braço esqucrdo ao Menino Deos; são estas Imagens muyto perfeitas, & de fermosas feições estão ambas coroadas de prata & ricamente encarnadas & pintadas ao antigo & sendo a encarnação feita há muytos annos parecem acabadas de poucos dias. O Menino JESUS tem na mão huma Cruz. Sendo aquella freguesia antiquíssima ainda querem que seja nella muyto mais antiga a Senhora. He a sua Ermida annexa à Igreja Matriz de Torres Vedras, & assim o Prior da mesma Igreja a administra. Tem aquelles lugares muyta devoção com esta Santa Imagem; obséquio devido aos muytos favores que recebem de Deos por sua intercessão».
(11) TT-CEL, Mç. 1837, s/n – Inédito

TT : Torre do Tombo
AHPL : Arquivo Histórico do Patriarcado de Lisboa
CEL : Câmara Eclesiástica de Lisboa
CHR : Chancelaria Régia